terça-feira, 9 de outubro de 2007

Jardim de Deus

" A primeira vez que fui para o deserto foi uma experiência marcante na minha vida. Já havia visto imagens, fotos, trechos em filmes mas tudo aquilo era ilusório. Quando se coloca os pés no chão, a realidade é sentida.

A viagem seria para o sul de Agadez, para uma região chamada Tiguidit, queríamos ver uma parte do Sahara ("deserto", em árabe). No caminho vimos os viajantes e as areias que aumentavam de tamanho. Era incrível as dunas que se moviam constantemente pela força do vento. Quando chegamos em um zigue-zague constante - pois não podíamos deixar que as mesmas nos pegassem - as surpresas começaram a aparecer pois no vazio daquele lugar a beleza dava o seu grito.

O deserto não é ruim, ele é belo. Muito belo! É um lugar onde você olha para sí mesmo, ouve seus ouvidos com o eco do vento, toca seu rosto com a areia que abraça. Imagine quantos trilhões de grãos de areia para formar o Temet (a maior duna do Níger, África)? Imagine as riquezas que se encontram alí, escondidas? Sim, o Pai já falou que nos daria "os tesouros escondidos", e esses precisam ser "fuçados", procurados. Privilégio de poucos.

O deserto é maravilhoso, é um lugar onde todos deviam ir. Subí numa duna e escorreguei por ela, brinquei como criança e pude conversar com meu Pai sossegado. Era um sonho, embora o calor aumentasse a cada minuto, não queria mais sair dalí. É lá que tive a oportunidade de ver algo mais naquela cor só, olhar com os olhos do artista os desenhos sobre as areias, rochas, céu. Lindo.

Todas as vezes que fui lá me surpreendí. Eu gosto de surpresas, elas nos fazem abrir os olhos pra vida! Ficava perplexo pois parecia que nunca havia estado alí antes, por isso que o Sahara é cativante: o maior deserto em extensão do mundo, talvez até maior do que o Brasil.

Ninguém mora lá, ele não permite isso. Sua beleza é única para aqueles que passam pelo local, não existe um dono permamente: todos aqueles que querem afrontar o "status quo" e sair da rotina precisam passar pelo deserto. É muito mais do que purificação, é essência de vida. Todas as vezes que íamos e voltávamos, se encontrava gente. Gente simpática, gente acolhedora. Numa das viagens, uma família nômade tuaregue nos recebeu: senhora estendeu o tapete, trouxe-nos água e queria fazer comida para nós. Numa outra oportunidade fomos atrás de um poço e, ao encontrar um pastorzinho adolescente, vimos seu esforço em capturar um carneiro para que pudéssemos comer. Esses são os viajantes do deserto que tiram do lugar "rude" uma vida que poucos podem ter. Afinal de contas, o sorriso deles é constante. Alguém aí fica sorrindo em um engarrafamento?

Me lembro uma vez que o carro estagnou na duna. Foram apenas 30 centímetros de diferença na trilha, mas o suficiente para ficarmos presos. A água foi acabando, a comida também e lá tive eu que andar em direção da estrada para pedir socorro... Nossa, que experiência que mexeu com meu interior! A medida que caminhava, se distanciava do carro, mais o Sahara me consumia por dentro. Era uma afronta grande a minha segurança, pois quando o carro sumiu (leia-se "referência"), o mundo se foi dos meus pés. Não tinha como olhar para trás, era só pra frente e manter os pés numa única direção. Estrada? Onde ela estava? Não enxergava nada, apenas as miragens à minha direita. "Será que estou no caminho certo?", indagava. No meio das minhas perguntas, ví um carro bem longe. Acenei. Graças ao Pai eles viram e vieram ao meu encontro... Daí por diante saímos da insanidade de não andar na trilha, por mais que sejam 30 centímetros. Essa é uma regra que o deserto impõe: ande na trilha, pois ela existe. Você não está vendo? Aprenda a abrir os olhos, elas SEMPRE estão lá.

E os nativos daquela terra, primitivos? Fala sério, primitivos somos nós com nossas correrias insanas num mundo de plástico que não permite nem que você diga "bom dia" no sobe e desce do elevador. Vida segura e ridícula. Vida sem deserto, vida seca, frágil, cheia das verdadeiras miragens que engana a todos. Não vejo a hora de sair daqui e voltar para o lugar que me ensinou a ver mais, sentir mais, tocar mais. Quero estar longe dos bytes que vem e que vão, sinceramente!

Agora sim eu compreendo a razão de um provérbio árabe: "o deserto é o jardim de Deus". Com certeza, é sim. Só sabe disso quem foi lá, quem afrontou a sí mesmo a ação de procurar coisas novas, de ver na crise uma oportunidade de saltar. O deserto faz isso com a gente, fortalece nossa musculatura. Um jardim maravilhoso!

1 comentários:

Patrick Moreira disse...

Que experiência incrível!
Meus parabéns pelo blog!
Muito bom!